Chovia grosso. O guarda-chuva, de cor esmaecida e hastes tortas, não era de muita serventia, mas cobria-lhe a cabeça, que tinha uma proteção extra - um lenço de seda que havia ganhado em seu último aniversário.
Andava rápido, numa cadência desviando das poças na calçada e dos cidadãos que, infelizes como ela, estavam na rua com aquele tempo.
Chegou enfim ao seu destino: sapatos ensopados, pernas salpicadas de lama do joelho para baixo, costas molhadas. Tirou o lenço, apalpou os cabelos, sorriu e entrou.
A igreja estava lotada. A missa já havia começado. Era de sétimo dia da moradora mais antiga do prédio em que vivia.
Não havia lugar nos bancos. Acomodou-se encostada a uma pilastra, ao lado da entrada.
Vez ou outra alguém lhe dava um adeusinho, e ela retribuía.
Enquanto levava o olhar ao teto, pensava:
“Hum… não sei por que falam comigo. Não lembro de ninguém.
E essa missa que não acaba… Por que estou eu aqui? Nem conhecia tão bem assim a defunta…
Por que as igrejas têm janelas tão altas, se ninguém consegue acessá-las? Será para ver o céu ou deixar os anjos entrarem? E os anjos? Moram aonde? Nas nuvens, com certeza.
Por que as pessoas morrem? E Para onde será vão? Talvez para as nuvens, viver com os anjos.
A vida tem tantas coisas que não entendo… As nuvens, por exemplo: por que não caem? Não faz o menor sentido não caírem. E as folhas das árvores, por que caem? E as flores, tão lindas… Essas sim não deveriam morrer.
E essas janelas tão altas… para quê, se ninguém pode chegar lá? Ah… são para os anjos entrarem. Esqueci.
E essa missa que não acaba nunca… Como saio daqui sem que ninguém me veja? Se eu fosse um anjo, poderia sair pelas janelas…
Nossa… como posso pensar em ser um anjo? Uma pecadora que nem sabe o nome da defunta para a qual veio rezar… Aliás, rezar não! Nem sei fazer isso.
Ai, que bom… está na hora da comunhão. Falta pouco. Lembro que, quando ia à missa com minha mãe, essa era a parte de que mais gostava. Sabia que o fim estava próximo. Tomara que isso não tenha mudado.
Se o padre distribuísse vinho com as hóstias, eu até entrava na fila… Ai, que horror. Sou mesmo uma pecadora…
Mas por que o padre pode beber vinho sozinho e ninguém diz nada?
E as nuvens? Por que não caem?
E essas janelas tão altas, para quê?
Ah… são para os anjos entrarem. Esqueci.
Bem que um anjo poderia me tirar daqui… mas antes, o padre bem que poderia servir um vinhozinho.