sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Somos todos iguais

                                                 (Inspirado na Ilha das flores de Jorge Furtado)

José Carlos era médico e atendia seus pacientes no centro da cidade. Genilson era baleiro e vendia sua mercadoria em uma barraca na frente da portaria do mesmo prédio em que o doutor tinha consultório.

Os dois homens cumprimentavam-se todos os dias e às vezes o médico parava para comprar algumas balas e conversar um pouco.

O vendedor tinha um filho com problemas de saúde e pediu ajuda ao doutor, que o mandou levá-lo ao seu consultório, onde que daria uma olhada sem custo. O homem, emocionado, tentou beijar as mãos de José Carlos que recuou dizendo que não havia necessidade de agradecimentos, que era médico por vocação, honrava o juramento de Hipócrates e que para ele todos eram iguais. Genilson, não entendeu bem, mas ficou feliz.

O médico saía pela porta dos fundos todas as vezes que a secretária informava que o vendedor o estava esperando com o filho, mandando que dissesse para voltar outro dia.

Hipócrates foi um médico grego que viveu antes de Cristo e foi considerado o pai da medicina ocidental. Acredita-se que o juramento tenha sido escrito pelo próprio Hipócrates ou por um de seus alunos e é feito pelos médicos, tradicionalmente na ocasião da formatura, onde juram exercer a medicina de forma honesta e que o bem-estar do doente estará sempre em primeiro lugar.


O vendedor não desistiu de levar seu filho ao consultório e um dia foi finalmente atendido. O doutor o examinou, fez umas perguntas e doou algumas amostras de medicamentos vencidos, que estavam separadas para serem descartadas. O baleiro não se importou com a data de validade dos remédios. Sentiu-se muito grato e no dia seguinte, pela manhã, voltou para deixar de presente um pacote da melhor bala que tinha em sua barraca como agradecimento.

Remédios fora da validade podem não ter efeito ou fazer mal à saúde causando danos piores que os da doença original. Não devem ser consumidos em hipótese alguma por ninguém. 

Os remédios considerados pelo médico como inapropriados para os clientes que frequentavam seu consultório foram colocados à disposição do filho do vendedor de balas.  Um médico é o profissional que cuida da saúde das pessoas e que, para tanto, precisa jurar exercer a medicina de forma honesta e tratar todos os seus pacientes de forma igual.

O que diferenciava o baleiro e seu filho dos outros clientes era o fato de não possuírem dinheiro. E o que os diferenciava do médico era acreditarem que ele tratava a todos como iguais.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Quarto 410

 

Era um dia de sol quente, “céu de brigadeiro” ou algo assim, não sabia bem qual a expressão usar ao certo para descrever aquele azul reluzente, sem nenhuma marca, que levava o olhar até o infinito.

Dirigia sem destino certo, sem ter para onde ir. Quando se deu conta, o sol já não mais esquentava e o céu havia escurecido. Perguntou-se como não havia percebido o tempo que estava na estrada e, com a súbita consciência do longo período passado dentro do carro, veio a fome, a sede, o cansaço nas pernas e todas as sensações de um corpo que grita após longas horas dentro de um veículo. Resolveu, então, que era hora de parar e procurar algum lugar para passar a noite; recuperar-se para seguir viagem na manhã seguinte. Perguntava-se para aonde iria tendo em vista não saber ao certo onde estava quando avistou um posto de gasolina à frente. Foi até ele em busca de informação e aproveitou para abastecer e verificar as condições básicas do veículo. Desceu do carro enquanto o frentista cuidava dele e entrou na pequena loja que ficava na parte de trás, comprou água, alguns biscoitos e um sanduíche, que devorou em segundos. Tomou dois cafés, pediu informações de algum hotel por perto, pagou e saiu. Ficou sentada ainda por um tempo no pequeno banco encostado na porta do lado de fora da loja enquanto tomava pequenos goles da garrafa de água que adquiriu. Levantou-se, pagou ao rapaz pelo serviço, entrou no carro e seguiu para encontrar o hotel que lhe informaram como sendo o único na região.

 

O hotel lhe pareceu com uma boa aparência e aconchegante. Se bem que ela não sabia se suas impressões eram realmente o que sentia ou estava sendo levada pelo fato de ser o único na região e, portanto, não tinha opções, mas estava muito cansada para ficar analisando suas reações. O que queria mesmo era um bom banho quente e uma cama onde pudesse se esticar e dormir.

 

Mal tinha encostado no sino, pendurado na parede do canto esquerdo do pequeno balcão para ser tocado pelos os que ali chegavam em busca de atendimento, e um rapaz com um sorriso largo surgiu parecendo ter brotado do nada, assustando-a um pouco, e logo se colocou a atendê-la. Não havia muitos quartos disponíveis; na verdade, só dois estavam vagos. Ela escolheu o que tinha vista para o mar, mesmo sendo uma visão um pouco distante e sabendo que não teria nem tempo para admirações, pois só queria dormir e sair bem cedo, na manhã seguinte. Optou por pagar um pouco mais caro para sentir a energia que emanava dos ares marítimos. Pegou as chaves do quarto 410 e, sem aceitar ajuda para levar sua bagagem, subiu as escadas com sua pequena mala.

Ao entrar no quarto, abriu a janela em busca das vibrações positivas que acreditava virem dos ares do mar e ficou ali por uns segundos, mas logo a fechou, pois o ar gélido da noite fria e escura invadia o quarto. Tirou as roupas, jogando-as em um pequeno sofá encostado na parede em frente a cama, e entrou em um demorado e merecido banho quente, indo para a cama em seguida.

Acordou com a luz do sol que entrava pelas frestas laterais da janela e sentiu-se aquecida e com uma sensação de bem-estar que há muito não experimentava. Ao olhar o celular, sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama, assustou-se com a hora e levantou-se de um pulo. Já passava das nove e, a essa altura, pretendia já estar na estrada. Tomou um banho e, ao fim deste, já estava com uma outra perspectiva. Sentou-se na beira da cama e começou a admirar o quarto, pequeno, mas muito confortável e aconchegante. Passou a mão pelos lençóis, achando-os macios, levou o travesseiro ao encontro do rosto, abraçando-o como se fosse um amigo cheiroso, e pensou: “Por que tanta pressa, afinal não tenho destino certo nem hora para chegar a lugar algum?”. Vestiu-se e desceu em busca de um merecido café, pois acabara de se dar conta que estava faminta. Ao chegar à recepção, foi recebida por uma agradável mulher de meia-idade que, antes mesmo de ser solicitada, lhe conduziu ao salão de refeições onde uma farta mesa de café a esperava. Sentou-se em uma das pequenas mesas e foi servida por um rapaz de óculos e muito simpático. Comeu feito uma rainha e resolveu dar uma caminhada até a praia que não ficava muito longe dali.

Voltou já na hora do almoço, que era servido no mesmo salão do café, mas, apesar do aroma maravilhoso, não quis comer, pois ainda não tinha fome devido ao farto café da manhã que tomara há pouco tempo, e subiu decidida a arrumar suas coisas e partir. O quarto tinha sido arrumado e exalava um cheiro de flores muito agradável. Sentia-se como em um ambiente conhecido e bem familiar. Era como se já estivesse estado ali. Resolveu, então, que passaria mais aquela noite e seguiria sua viagem na manhã seguinte.

Não saiu mais do quarto. Pediu uma sopa na hora do jantar, tomou um banho morno e tentou dormir, sem sucesso. Levantou-se, abriu a janela e deixou o ar frio da noite a abraçar. Ficou algum tempo admirando o céu estrelado e, de repente, achou que tivesse sido chamada por uma voz. Virou-se assustada para dentro do quarto, fechando a janela em seguida, mas não havia ninguém ali. Sacudiu a cabeça, dizendo para si mesma que deveria ter escutado um som de algum animal e, quando ia em direção à cama, olhou para o canto do quarto e viu um armário, que até então não havia notado. Era um móvel antigo, composto de várias gavetas e achou curioso como não o tinha visto antes. Ficou atraída por ele e, em um impulso de curiosidade, pôs-se a abrir as gavetas. Estavam vazias. Mas a última, que era mais funda do que as outras, quando aberta, teve a tábua de baixo levantada, o que a estava impedindo de fechar de volta. Ao tentar ajeitar, viu que se tratava de um fundo falso. Não teve dificuldades de removê-lo por completo, pois a madeira já estava fraca, e quando a levantou deu de cara com várias cartas amaradas com uma fita de cor indefinida, com as pontas rasgadas e fotos, também unidas por material semelhante. Foi invadida por um sentimento misto de querer abrir e de achar que não devia. Mas a curiosidade foi maior e, no instante seguinte, estava sentada na cama, lendo as cartas e vendo as fotos. Deveriam ser bem antigas, o papel estava amarelado e as fotos, além de gastas, eram de pessoas com vestes que mais pareciam de um filme de época. Eram muitas e ela pensou de quem seriam, se foram esquecidas ou estavam guardadas ali.

Passou a noite entretida naquelas linhas, eram cartas de amor. Pareciam terem sido trocadas entre duas pessoas que ficaram separadas por um longo tempo contra a vontade. Confidências, lamentos de uma vida passada a distância, projetos, sonhos de um futuro que não tinha como saber se foram realizados. Ficou penalizada por eles, pelo sofrimento e amor colocado ali; parecia sentir a dor deles. Já era madrugada quando deixou um pouco as cartas de lado e pegou as fotos. Pareciam pessoas conhecidas, próximas, mas sabia que não poderiam ser, pois eram muito antigas, de uma época muito distante. Não conseguiu pregar os olhos e, quando se deu conta, o sol começava a dar os primeiros sinais de que o dia havia chegado. Estava como se não tivesse passado a noite em claro; sentia-se bem-disposta.

Juntou as cartas e as fotos, mas não as colocou de volta onde as encontrou. Sentia que não conseguiria mais deixá-las ali e as guardou junto com as suas coisas. Tomou um demorado banho e saiu para caminhar. Sua intenção era de ir em direção à praia, mas, quando percebeu, estava na frente de uma pequena gruta. Não sabia como havia chegado ali e aproximou-se para ver mais de perto. A entrada estava coberta com uma vegetação úmida de aspecto não muito agradável, o que a incomodou e a fez desistir da ideia de explorar o interior. Achou que se tratava do lugar de despedida descrito em uma das cartas, daquelas duas pessoas apaixonadas que ela sentia como se as conhecessem. Começou a sentir a respiração ofegante e resolveu que era melhor voltar ao hotel.

Entrou apressadamente e foi direto para o lavado que tinha ao lado do salão onde estava sendo servido o café. Jogou água fria no rosto e na nuca, deixando-a escorrer pelas costas, e ficou por alguns minutos olhando-se no espelho, perguntando o que ainda estava fazendo naquele lugar, mas sacudiu a cabeça como não querendo ouvir a resposta e saiu. Foi para o salão, sentou-se à mesma mesa da manhã do dia anterior. Fez sua refeição calmamente, mas não conseguia parar de pensar nas cartas, nas imagens das pessoas nas fotos que ela poderia jurar que conhecia e no passeio que a levou aquele lugar desconhecido e misterioso para ela.

Quem seriam aquelas pessoas? Por que achava que as conhecia? Perguntas lhe invadiam e, por alguma razão, ainda desconhecida, tinha que descobrir. Foi até a recepção e procurou saber se havia alguma fonte de informação a respeito da história daquele lugar, de sua origem, do que havia existido ali antes do hotel. A senhora que estava atrás do balcão a olhou com ar simpático, observando-a por alguns segundos, e perguntou por que estava interessada. Ela respondeu que estava atraída pela energia daquele lugar por uma razão que não sabia explicar. A mulher lhe pediu que a esperasse um instante e chamou um rapaz pelo telefone interno, para ficar na recepção em seu lugar.

As duas foram dar uma volta no jardim da propriedade, que, como o hotel, era lindo e parecia guardar segredos, e chamou sua atenção o fato de não ter notado aquela parte do local até aquele momento. Sentiu como estivesse passando por ali pela primeira vez e um arrepio percorreu-lhe o corpo e levou um susto quando a senhora a tocou no braço, para seguirem em seu passeio. Fingindo não perceber o estado de sobressalto da sua acompanhante, a mulher começou a contar a história que sabia sobre aquele local. Tinha sido residência de uma conceituada família no século dezenove. Viveram ali um casal e uma filha e alguns empregados. Corria na região que a menina, filha do casal, foi mantida trancada no quarto após malsucedida história de amor com um dos empregados, que teve que fugir para não ser morto pelo pai, e que só uma empregada tinha contato com ela, levando-lhe as refeições e cuidando de sua higiene. Além disso, reza a lenda, fazia a troca de correspondências entre ela e o seu amado. As duas ficaram em silêncio por um tempo que pareceu ser dado pela narradora para que a história pudesse ser absorvida e, então, seguiram, uma contando e a outra apenas escutando.

A mulher continuou o relato de que contavam que o empregado fugitivo, um jovem rapaz na época, após anos e já um homem de posses que havia se tornado, voltou à cidade para resgatar sua amada, tendo sido ajudado pela empregada, que os acompanhou na fuga, pois, se ali ficasse, seria morta ao descobrirem a traição aos patrões. A mãe, ao saber da ida de sua filha, caiu em desgosto profundo e nunca mais saiu de casa; o pai mandou vasculhar toda a região atrás do casal, mas sem sucesso, o que o fez também cair em depressão. Após alguns anos de puro isolamento, os pais da jovem partiram dali e nunca mais se ouviu falar deles. A casa ficou abandonada por vários anos e passou a fazer parte do patrimônio da cidade, tendo sido construído então o hotel.

Já estavam retornando, pois a senhora parecia não ter mais nada a revelar, quando ela fez uma pausa e perguntou se a narradora saberia dizer se o hotel tinha conservado algumas partes da casa original e quais seriam. A resposta a deixou ainda mais confusa, embora em seu íntimo já soubesse. O quarto que ela estava ocupando foi a única parte da casa que foi mantida como original, pois estava praticamente intacto, apesar de todo o abandono, bem como os móveis do cômodo, que só precisaram de uma restauração. O jardim também foi totalmente aproveitado.

A noite foi longa, não conseguiu dormir com todas aquelas informações lhe revirando na cabeça, não entendia por que foi levada até aquele lugar, por que descobriu as cartas, as fotos. Muitos porquês sem respostas. Arrepiava-se só de pensar que estava dormindo no mesmo quarto onde foram escritas e lidas todas aquelas cartas, palco de lágrimas e esperança. Adormeceu sem sentir e, na manhã seguinte, ainda sem respostas a seus questionamentos, resolveu que já era hora de seguir sua viagem. Sentia que, talvez, sua estada ali tivesse sido para lhe dizer que, por mais que a vida lhe force a mudar seu curso, tentando tirar o que de fato é seu, deveria seguir acreditando e lutando pelo que queria de verdade. Ainda sem saber bem o que deveria fazer, arrumou suas coisas, comtemplou as cartas e fotos e resolveu que não deveria levá-las, mas também não as deixaria ali, perdidas no fundo daquela gaveta.

Pagou a conta, arrumou sua pequena bagagem na mala do carro e, antes de pegar a estrada, foi fazer uma coisa que sentia que devia. Foi até a gruta que havia descoberto na caminhada do dia anterior e, não mais se incomodando com a vegetação úmida que cobria parte da entrada, entrou em seu interior. Era um lugar menos assustador do que parecia ser do lado de fora, ou seu olhar estava diferente, não sabia dizer e não estava preocupada em ter a resposta. Sentou-se em uma das pedras, contemplou o teto, que era bem alto, e as paredes, que eram igualmente de pedras e pareciam guardar uma energia incomum a todas que já havia sentido. Ficou ali por um tempo que não soube mensurar. Abriu, então, a bolsa que carregava, tirando de dentro as cartas e as fotos que resgatou do fundo falso da gaveta do armário e as colocou atrás de umas pequenas pedras e saiu em seguida, segura de que ali era o lugar delas.

Era uma tarde fria em Paris, o vento lhe fazia carinho no rosto anunciando que a estação que mais amava se aproximava. Andava pelas ruas admirando as folhas caídas das árvores, que faziam desenhos pelo chão e com a certeza de que ter voltado para viver a sua vida e dar a ela o curso que queria dar foi a melhor decisão que poderia ter tomado.

terça-feira, 2 de março de 2021

Memórias de um carnaval

 

(Este conto foi escrito com base em minhas memórias de adolescência de um lugar mágico onde passei verões memoráveis. Agradeço a minha amiga Tete, parceira de velhos carnavais pela ajuda nas lembranças e o incentivo que me deu para escrever este conto.)


Memórias de um carnaval

 

Cidade do interior, tranquila de irritar. Tão pequena que se podia percorrê-la de cabo a rabo em menos de um dia, e a pé. Poucos habitantes, todos se conheciam pelo nome, até os cachorros da rua eram velhos e fiéis parceiros dos moradores. Nada era novidade; tudo acontecia exatamente igual todos os dias, durante quase todo o ano, a não ser pelas férias de verão, que quebrava completamente a rotina do pacato e monótono local. A estação chegava ensolarada e, com ela, os jovens e animados veranistas que lotavam as praias paradisíacas do velho balneário, trazendo as novidades da cidade grande, que, embora a poucos quilômetros dali, parecia ficar em outro planeta, dada a realidade tão singular dos que ali viviam.

 

Os visitantes sentiam-se como os verdadeiros donos daquele pequeno lugar. Se pudessem, passariam a vida em eternas férias por ali. Chegavam com ânsia de saborear os dias mais esperados do ano, não se permitiam perder um só minuto. Grandes amizades e romances nasceram ali, alguns se perderam, mas muitos perduraram. As manhãs eram passadas na praia e as tardes e noites dividiam-se entre passeios pela cidade, com direito a paradas na pracinha da igreja e a da estação e o glamuroso Iate Clube, que servia de palco para inúmeras atividades, como os famosos bailes de carnaval.

A estrutura da cidade era reduzida, não comportava o acréscimo de visitantes que acontecia no verão, embora chegassem todos os anos e, portanto, não era novidade; eles já faziam parte da vida daquela pacata região. Mesmo assim, era a mesma coisa: faltava luz, água e até pão acabava na padaria. Mas nada abalava o brilho e a alegria; pelo contrário, cada minuto valia a pena. Os dias de sol passados na praia, com a areia que grudava no corpo e leva o resto do ano para sair por completo; os banhos de balde pegos nas casas dos vizinhos afortunados, que tinham mais de uma caixa d’água e conseguiam armazenar antes que a água da rua parasse de entrar e cediam para quem ficava na seca; as noites de lampião quando a luz acabava, proporcionando a visão do céu estrelado como purpurina. Esta era outra peculiaridade daquele lugar incrível, pois não havia no planeta outra visão de céu como aquela, um verdadeiro mar de prata que iluminava as noites inesquecíveis ao som do dedilhar dos violões dos jovens músicos que por ali passavam e deixavam sua marca embalando canções pela madrugada nos banquinhos da aconchegante pracinha da igreja.

Nas recordações da inesquecível cidade, não poderia deixar de lado os blocos de rua do evento mais esperado do verão, o carnaval. Eram verdadeiros encontros de amigos animados e felizes que aguardavam durante todo o ano e sentiam-se as criaturas mais felizes do mundo brincando debaixo do sol de escaldar e sujos, da cabeça aos pés, como era o caso de um dos ícones das festividades, que, literalmente, pintava seus integrantes com pedra de carvão. E a cereja do bolo: os bailes noturnos do Iate Clube. O verdadeiro nirvana, onde até as brigas, que aconteciam todos os anos, eram aguardadas com ansiedade e, claro, faziam parte dos comentários posteriores ao evento – aliás, como todos os outros episódios vividos ali. Poder-se-ia dizer que o resto do ano passado na cidade grande só servia de espera para aqueles dias de pura magia. O carnaval era realmente o ápice das férias de verão e foi em um desses eventos que nossa história se passou.

As fantasias eram elaboradas com o primor e cuidado que só os grandes acontecimentos merecem. Todos os detalhes eram importantes, nada poderia destoar do contesto final. Cada um dos participantes da grande festa queria estar lindo e perfeito para ser admirado e, acima de tudo, para se divertir e brincar o carnaval até o sol raiar. Assim, com as preparações das brilhantes fantasias, os dias que antecediam o mais esperado evento de verão se passavam, até que, finalmente, chegava o grande e aguardado momento.

 

O sábado de carnaval, dia de calor intenso, começou na praia, com os moradores de verão sentados em roda nas areias brilhantes e grudentas, a conversar ansiosos pelo primeiro dia do baile. A expectativa pelas fantasias era grande, pois ninguém sabia o que o outro usaria até a hora de se encontrarem para irem juntos ao baile – alguns, no entanto, só se veriam no meio do salão. E, finalmente, a lua despontava no céu estrelado, indicando que era chegada a hora de correrem para casa e começarem a montagem de seus personagens festivos.

A neta de um dos veranistas mais antigos da cidade estava se arrumando no quarto da pequena casa de seus avós, que ficava na rua principal. Com as janelas abertas, enquanto se preparava, podia ver o movimento que crescia dos passantes animados e fantasiados. Ela estava aflita, pois a luz havia acabado. Como o único lampião da casa estava sendo usado pela mãe, na sala, resolveu acender uma vela e colocar na janela. O quarto, como a casa, era de tamanho reduzido, com um sofá-cama de casal, onde dormiam os pais, um beliche, para a jovem e a irmã caçula, e o majestoso vovô, um armário antigo de uma porta, dividido em cabideiro, que precisava de escada para manuseá-lo, dado a altura elevada, uma gaveta na parte de baixo e um suntuoso espelho de cristal na parte de fora da porta do velho e estimado móvel.

A visibilidade era bem reduzida, mas ela seguiu se arrumando apressadamente, pois via que o movimento na rua estava aumentado em direção ao Iate, o que indicava que o baile estava prestes a começar, e queria estar lá para a primeira música, o que já era uma tradição. Achou melhor colocar a fantasia antes de prosseguir com a maquiagem e se escondeu atrás da porta, dado que a janela do quarto estava aberta em busca de melhor iluminação, e colocou sua vestimenta. Não conseguiu se ver muito bem, mas ficou parada na frente do espelho do velho armário, tentando entender como se sentia. Usava um colã rosa, meia-arrastão preta, sapatilhas prateadas e, complementando o traje, um adorno de grandes penas rosas e brancas na cabeça. Achou-se um pavão, mas, como estava sem muito tempo para análises, resolveu voltar à etapa da maquiagem, a qual julgava ser tão importante quanto à roupa. Passou base, pó compacto, blush, tudo quase que no tato, pois a visão era reduzida pela falta de luz, que ainda não tinha voltado, mas seguia na arrumação, dando graças aos céus que o Iate Clube contava com auxílio de gerador, o que não colocaria a festa em risco.

Já estava quase pronta, com o delineador bem marcado, como gostava e como o fez com todo cuidado; só faltava passar a máscara dos cílios, e o batom. Estava entre um rosa bem forte, para seguir o padrão da roupa, e um prateado. Ao segurar os dois na mão e esticar o braço na direção da vela para poder ver melhor, desajeitou-se e os deixou caírem no chão. Abaixou-se em seguida para pegá-los e, ao se levantar, esbarrou com as penas na vela acesa que estava na janela. Como o quarto estava na penumbra, as chamas vindas das penas logo chamaram atenção de uma das pessoas que passavam pela rua, que deu um grito e apontou na direção da casa. A neta do velho veranista continuava dentro do quarto, entretida na dúvida de qual batom usar, e nada tinha percebido e levou alguns segundos para ver que os gritos de pânico e os acenos da passante eram em relação a ela. Quando se virou e viu sua imagem no espelho, literalmente, com labaredas em cima cabeça, começou a gritar, chorar e a pular, o que atraiu outras pessoas que passavam na rua e que logo formaram uma pequena aglomeração para ver o que estava acontecendo. A essa altura, a mãe, que estava na sala, já tinha entrado correndo no quarto e dado de cara com aquela cena bizarra. Rapidamente, deu um voo em direção as penas, jogando-as no chão e pisando em cima para apagar o fogo. Diante daquela atitude de sua progenitora, a menina parou de chorar e até de se mexer, ficando imóvel, e se estabeleceu um silêncio ensurdecedor.

Na rua, as pessoas se amontoavam à beira do pequeno muro que separava a casa da calçada, querendo saber o que estava realmente acontecendo. Cada um que passava, e via o volume de gente parada, se aproximava e queria informações sobre o ocorrido e as notícias variavam; já estavam na vertente de que a mãe havia colocado fogo na fantasia da filha para não a deixar ir ao baile por algum motivo ainda desconhecido. Enquanto isso, dentro do quarto, a filha, finalmente, saiu de seu estado de inércia, se ajoelhou, pegou as penas, ou o que restaram delas, viu que tinha um buraco no meio e voltou a gritar, dizendo que estava tudo acabado e que sua tão aguardada noite de carnaval terminara antes de começar. Gritava e chorava e a mãe, sem saber o que fazer, tentava ajeitar as penas na cabeça na filha, sem sucesso.

A multidão crescia do lado de fora e, a essa altura, a notícia que corria era que a filha queria fugir com um dos membros da banda que tocaria no baile do Iate Clube e mãe estava tentando segurá-la em casa e já havia até colocado fogo em sua fantasia, mas nada estava conseguindo fazê-la desistir. E, no desespero, a menina atirou as penas pela janela no meio da multidão, que se acotovelava para pegá-las. De repente, a luz voltou e uma forte chuva veio com ela, o que ajudou a dispersar as pessoas.

A mãe, achando que tudo já estava resolvido, que a filha logo se recuperaria do susto e, no dia seguinte, estaria pronta para mais um dia de carnaval, concluiu que o melhor seria realmente uma boa noite de sono. Para acalmar os ânimos, saiu do quarto e fechou a porta. Mas a menina não compactuava com os pensamentos da mãe e resolveu que sua primeira noite de carnaval não poderia acabar assim e rapidamente trocou de roupa. Colocou um short preto com a bainha desfiada e uma miniblusa com paetês prateados que havia usado no carnaval passado, ficando somente com as meias e sapatilhas do traje original. Saiu do quarto dizendo que não perderia seu baile dos sonhos por nada, que não seria uma pena em chamas que estragaria seu evento favorito e mais aguardado do ano. Nem os apelos da mãe sobre a forte chuva que caía foi capaz de detê-la. Simplesmente passou a mão no guarda-chuva, que estava do lado de fora, encostado em uma pequena cerca de madeira feita para amparar a lata de lixo, e saiu batendo o portão.

Chegando ao Iate, deixou o guarda-chuva em um canto na entrada reservado para ele e seguiu em direção ao salão lotado. Havia perdido a abertura do baile, uma tradição que adorava participar, mas não queria mais desperdiçar suas energias com nada além de seu tão esperado carnaval, já bastavam os acontecimentos ocorridos antes de sua chegada ali; agora só queria brincar até o sol raiar. Mas, quando se preparava para finalmente adentrar o salão, viu uma cena inusitada para seus olhos: uma pessoa dançando em cima de uma mesa, com umas penas na cabeça, com uma abertura no meio. Foi se aproximando e, quando chegou perto, viu que era o seu arranjo de penas queimadas que a mulher em cima daquela mesa estava usando e não teve dúvidas: puxou uma cadeira, subiu em cima da mesa e, de um só puxão, arrancou da cabeça da melindrosa que as usava, perguntando como ela se atrevia a utilizar algo que não lhe pertencia, e as colocou em sua própria cabeça. Desceu da mesa com muita calma, sendo seguida pelos olhares de todos que a observavam sem nada dizer, inclusive da mulher que teve da cabeça as penas arrancadas. Em seguida, entrou no meio do seu tão esperado baile de carnaval e dançou até o sol raiar.