sexta-feira, 25 de julho de 2014

Dizem que eu morri

Mercedes era a primeira dançarina do grupo de dança do Teatro “El Tango” em Buenos Aires e fazia par com o charmoso Carlos, que para pesar de Mercedes vivia cercado pelas damas.
Mercedes era apaixonada por Carlos, mas se contentava em ser apenas sua parceira de dança já que o rapaz estava longe de ser homem ligado a compromissos que lhe tomassem mais do que uma noite.

Mercedes chegava cedo ao teatro, gostava de verificar todos os itens antes do espetáculo e quando possível repassar os passos, o que acontecia raríssimas vezes tendo em vista que Carlos estava sempre atrasado e mal conseguia trocar de roupa antes de entrar em cena. Mercedes sempre lhe chamava a atenção, mas de pouco adiantava. De fato formavam um belo par, quem os via dançar não imaginava que se encontravam quase na hora de entrar no palco e praticamente não ensaiavam. Dançavam juntos há muitos anos e a afinidade entre eles era latente, respiravam sensualidade, embora para Mercedes fosse um pouco mais que isso, mas para Carlos demonstrar paixão no entrelace dos passos era o que realmente interessava e ele conseguia.

O Teatro abria de terça a domingo, mas Mercedes e Carlos somente se apresentavam as sextas e sábados a noite e nos domingos na matine, eram artistas da primeira linha do teatro, só faziam parte dos espetáculos principais.

Mercedes morava no centro da cidade, perto do “El Tango”, e mesmo nos dias em que não estava em cena ia assistir aos companheiros se apresentarem. Ela adorava aquele ambiente de musica, gente animada, feliz, falando alto, rindo mesmo que sem motivo, dizia que preferia estar ali a ter que enfrentar suas noites solitárias de quando não estava trabalhando. Era uma mulher linda, porém extremamente solitária e triste. Devido ao amor que sentia por Carlos não conseguia se relacionar com ninguém, embora pretendentes não lhe faltassem.

Carlos via Mercedes como uma linda mulher, mas só isso, até tentou se aproximar algumas vezes, mas quando percebeu que o interesse da moça ultrapassaria ao seu limite de uma noite resolveu se afastar para não causar falsas esperanças, embora sua estratégia não tenha cumprido o objetivo, pois Mercedes estava cada vez mais apaixonada por ele que parecia não perceber ou ao menos não demonstrava qualquer tipo de reação aos seus olhares ardentes.

E assim a vida de Mercedes seguia sem muita emoção até aquela fatídica noite de sábado. Era inicio de inverno, mas o clima já estava muito frio e naquela noite em especial a temperatura estava nos limites de congelar os ossos. Mercedes chegou cedo ao “El Tango”, como era de costume, e não se sentia bem estava com muito frio, não conseguia sentir-se aquecida mesmo com a calefação do teatro. Foi para seu camarim deitar e tentar relaxar um pouco. Após algum tempo voltou para o salão já com aparência melhor, tomou dois conhaques e disse que aquela noite dançaria como nunca e dirigiu-se para trás do palco onde Carlos já a esperava para entrarem em cena. Não deram mais do que dois passos e Mercedes caiu aos pés de Carlos imóvel como uma folha de papel inerte. – Mercedes!Mercedes!... Carlos abaixou a segurou nos barcos e pôs-se a chamá-la sem obter resposta. As luzes do tetro acenderam e o publico começou a ficar em polvorosa sem entender o que havia acontecido. Rapidamente a cortina fechou e um médico que estava na platéia atendeu ao chamado para socorrer Mercedes que permanecia caída e inerte nos braços de Carlos que a apertava forte contra o peito e teve dificuldades de soltá-la quando o médico se próximo. - Por favor, abram espaço para que eu possa examiná-la. O médico colocou os dedos do lado do pescoço de Mercedes, apertou seus pulsos, examinou os olhos com uma pequena lanterna sob os olhares fixos dos dançarinos que o cercavam e deu a notícia: Ela está morta. Não há nada o que fazer. Sinto muito. Foi um burburinho só, uns choravam, outros diziam não acreditar e Carlos jogou-se sobre o corpo já frio de Mercedes e pôs-se a chorar sem querer largar como se ela lhe pertencesse.

E no meio de toda aquela confusão do outro lado do palco estava ela, Mercedes, sem entender nada. - Ei!! Gente o que está acontecendo? Por que pararam com o espetáculo? E ia tentando passar no meio de todos empurrando um e outro quando se deparou com a mulher, caída no chão, envolvida pelos braços de Carlos que não parava de chorar. – Ei!! Quem é essa aí?... E já ia se abaixar para ver melhor quando ouviu Carlos dizendo no meio do pranto que não podia acreditar que Mercedes havia morrido, quase que ao mesmo tempo em que se afastava deixando o rosto da mulher a mostrar. Mercedes ficou paralisada, não podia acreditar no que acabara de ouvir e de ver. Era ela, caída no chão, com todos a sua volta a chorar a sua morte.  – Estão todos loucos! Pensou e começou a gritar tentando chamar atenção para si. – Ei!!!! Olhem, não morri coisa nenhuma!... Estou aqui!!! Olhem para mim!!! E sem ser ouvida andava de um lado para o outro tentando obter a atenção de alguém e não conseguia entender porque ninguém lhe ouvia. Chegou a pensar se tratar de alguma brincadeira, uma performance surpresa do espetáculo que ninguém havia lhe contato e no auge de seu desespero correu até Carlos com intuito de fazê-lo parar e quando tentou agarrá-lo pelos braços viu que suas mãos o atravessavam não sendo capazes de segurá-lo, tentou por várias vezes e nada. Entrou em pânico, não sabia o que fazer ninguém podia lhe ver, nem escutar, resolveu então abrir as cortinas para pedir ajuda ao publico, ver se alguém poderia lhe ajudar, mas o teatro estava vazio, todos já haviam saído, foram retirados após a explicação do diretor da casa do que havia acontecido, mas permaneciam na calçada do lado de fora a espera de mais noticias e Mercedes seguiu o vozerio e foi até lá. Ao sair deu de cara com um aglomerado de pessoas que falavam sem parar sobre o acontecido, ou seja, a sua morte no palco. – Meu Deus será que ninguém consegue me ver, será que morri mesmo?... Não, não, não pode ser... Não estou morta!!!!... Gritava e chorava andando pelo meio do povo, que não arredava pé da porta do teatro quando deu de cara com dois olhinhos fixos nela. Olhou para um lado pro outro, pra trás, a procura de quem aquela menina pudesse estar olhando e não viu ninguém. – Meu Deus ela está me vendo!... Andou até a menina que lhe abriu um largo sorriso. – Você está me vendo?... A menina fez que sim com a cabeça, mas em seguida foi puxada pela mãe que não fazia idéia do que se passava. Mercedes foi atrás. – Você pode me ouvir?... Por favor, me ajude. O que está acontecendo?... A menina olhava fixamente para Mercedes e colocou a mão na frente da boca e disse como que um segredo. – Você morreu. Lá no palco. Mercedes não podia acreditar no que acabara de ouvir e aos prantos pedia para que a menina lhe explicasse o que havia ocorrido, mas a mãe da garota mais uma vez a levou e desta vez para longe de seu alcance, e por mais que corresse atrás delas as perdeu no meio do povo que não parava de chegar a porta do tetro em busca de noticias.

Mercedes voltou para dentro do teatro e encontrou Carlos, ainda chorando, ao lado do corpo que agora estava no centro do palco em cima de uma mesa coberto por um lençol branco e todos os outros em volta de mãos dadas, também chorando, em uma espécie de oração pelo que pode entender. E pela primeira vez naquela noite pensou que realmente estava morta, embora não se sentisse. Foi até Carlos passou a mão por seus cabelos, tentou sem sucesso enxugar suas lágrimas e pensou: - Por que choras tanto a minha morte? Será que gostavas de mim? E nessa hora Carlos abaixo e beijou o rosto de Mercedes e baixinho disse que a amava e só não pôde lhe dar a segurança que ela queria, mas mesmo assim a amava. E Mercedes mais triste e amargurada ficou agora já convicta que realmente estava em seu leito de morte. – Ah Carlos por que nunca me disse isso? Tudo poderia ter sido diferente... Por quê?...

- Oh Mercedes, Mercedes!!!... Vamos o espetáculo já vai começar!... Vamos!... Batia Carlos insistentemente a porta do camarim de Mercedes que demorou muito a atender acordando de um pulo levando um grande susto sem saber ao certo quem estava a lhe chamar. 
- O que houve?... Quem está aí?...

-Oi sou eu Carlos!... Estou batendo na porta faz séculos. Vamos estamos atrasados! O que deu em você para perder a hora desse jeito?...Mercedes abriu a porta e ficou olhando para Carlos, ainda meio tonta e confusa.

- Não sei... estava cansada, não me sentia bem... Deitei e acabei dormindo um pouco... Não sei bem... Acho que estava tendo um sonho ruim...  Que bom que você me acordou. Vá indo que já, já eu vou. Mercedes acabou de se arrumar rapidamente e seguiu atrás de Carlos.

Naquela noite, Mercedes estava esfuziante, dançou como nunca, melhor do que todos os dias e com uma sensualidade diferente, mais ardente e mais próxima de Carlos, que embora não estivesse entendendo tratou de aproveitar e apertá-la mais em seus braços.

Despedida de solteira

Acordou cedo, ou melhor, levantou porque praticamente não dormiu. Passou a noite toda pensando no grande dia. Estava exausta, mas no primeiro toque do despertador saltou da cama, seria um dia longo, último antes das férias de uma semana para lua de mel após o casamento. Queria deixar tudo organizado no trabalho e a noite desfrutar de sua despedida de solteira com as amigas.

Tomou café rapidamente e seguiu para o escritório de contabilidade onde trabalhava no centro da cidade. – Bom dia, bom dia..., disse ao entrar pela porta esbaforida. Eurico, o chefe, que tinha sempre um olhar mais longo para ela, retribui ao cumprimento lamentando em pensamento o fato de sua mais bela funcionária estar com as horas de liberdade contadas.
Melissa era o nome dela, da sonhadora menina tímida que iria se casar e seguir vida de senhora. Estava nervosa como toda noiva as vésperas do casamento, mas o que mais estava a lhe afligir era a despedida de solteira, não parava de olhar o relógio para verificar quanto tempo faltava para terminar o expediente e poder ir ao encontro das amigas. Do escritório só havia convidado Clarice e Jussara, pois as outras mulheres que trabalhavam lá eram bem mais velhas e casadas e as amigas que estavam organizando o evento não acharam conveniente convidá-las, por mais que Melissa tivesse insistido.

Às dezessete horas, Clarice e Jussara, fecharam as gavetas e partiram para o tão esperado momento, a despedida de solteira de Melissa. Mas a noiva ainda teve que ficar trabalhando mais um pouco. Dezoito horas, dezenove..., ainda não podia ir embora, tinha que deixar tudo pronto, afinal iria ficar fora uma semana e não queria deixar trabalho acumulado. Enfim às vinte horas e quinze minutos havia conseguido acabar tudo e saiu deslizando pelos corredores, observada pelo chefe que mais uma vez lamentava por ela estar nas últimas horas de solteirice.

- Melissa!... Pensamos que tivesse desistido! As amigas estavam aflitas quando ela finalmente chegou ao bar que haviam marcado para tão esperada despedida de solteira. O local era animado com música alta, os garçons usavam calça preta, sem camisa e uma gravata borboleta prateada. A cada meia hora paravam nas mesas e faziam uma coreografia um pouco insinuante, o que deixava Melissa vermelha e suando de nervoso, só conseguia pensar em Fausto, o noivo. - Ah se ele me visse aqui... O lugar havia sido escolhido por uma amiga que, por sinal, Fausto não gostava e ele nem desconfiava. Melissa havia lhe dito que a despedida de solteira seria uma reuniãozinha entre mulheres só para bater papo e beliscar uns petiscos na casa de uma amiga do escritório, o que acabou por deixá-lo mais tranquilo e relaxado. Fausto era um homem extremamente ciumento, nem podia imaginar que sua noiva estivesse em um lugar como aquele. Melissa sabia disso e só de pensar sentia o coração gelar e por pouco não levantou e foi embora assim que chegou.

As amigas estavam eufóricas, dançando, bebendo e cada vez que os garçons se aproximavam das mesas com a coreografia, elas quase desmaiavam de tanto gritar. Mas Melissa só observava, ainda não tinha nem levantado da mesa, parecia travada, só pensava em Fausto, como iria encará-lo no dia seguinte, - Ai meu Deus... se ele descobre...

Após muita insistência das amigas, Melissa aceitou uma bebida que não sabia bem o que era, mas tinha um gosto bom, bem docinha e gelada e foram três uma atrás da outra e ela enfim levantou. Estava um pouco tonta, mas animada e começou a dançar com o garçom que estava em seu momento de coreografia e as amigas incentivaram batendo palma e gritando. Melissa seguiu a noite toda dançando com todos os garçons e se deliciando com a tal bebida docinha.

Lá pelas cinco da manhã, Melissa que estava dormindo em cima de uma das mesas do bar, foi acordada por um dos garçons que bateu de leve em seu braço, - Vamos querida, a festa acabou..., hora de ir embora. Ela abriu os olhos, olhou em volta e levou alguns segundos para entender onde estava. O garçom continuava parado na sua frente, sorrindo e lhe estendendo a mão em sinal de ajuda para sair de cima da mesa, - Vamos querida, a festa acabou... Melissa estava confusa e começou a se irritar com o jeito de intimidade que o garçom estava lhe tratando. Por fim aceitou ajuda para ficar em pé e olhou em volta a procura das amigas. - Elas já foram. Disse o garçom, como que lendo seus pensamentos. - Você estava tão animada dançando sem parar, não queria ir embora de jeito nenhum que suas amigas cansaram de lhe esperar e foram embora. Melissa estava atônita não estava entendendo direito o que aconteceu e enquanto o garçom, com aquele ar de intimidade falava sem parar ela ia tomando noção de seu real estado e ficava cada vez mais surpreendida e sem coragem de querer ouvir tudo o que realmente se passou com ela. Estava sem um dos sapatos, blusa amarrada, deixando a barriga de fora, coisa que jamais faria em seu estado normal. Os cabelos estavam totalmente desalinhados e um gosto horrível na boca, além do enjôo e da dor de cabeça que começa a surgir. O garçom, cada vez mostrando mais intimidade, estava com as duas mãos ao redor da cintura da Melissa, que quando percebeu o empurrou quase jogando o rapaz no chão. – Hum!!... Você estava parecendo gostar quando nós estávamos dançando... O que foi que houve? Melissa não deu atenção a ele, só queria achar sua bolsa e sair dali correndo. Após alguns minutos de angustiante procura, outro garçom se aproximou e lhe entregou uma bolsa.           - Suas amigas pediram para guardar para você..., Melissa nem deixou o rapaz acabar de falar, pegou a bolsa e saiu quase que correndo, tentando se ajeitar. Ao chegar do lado de fora, sentou em um banco que havia na calçada, abriu a bolsa para ver se estava tudo lá. Estava tudo e mais alguma coisa, Melissa quase caiu para trás quando achou vários bilhetes com telefones e recados insinuantes dos garçons do bar e para piorar seu estado, que já era lastimável, seu celular registrava vinte e cinco ligações do noivo, o Fausto. - Ai meu Deus..., Melissa estava desolada só de pensar o que Fausto estaria imaginando e mais do que depressa pegou um taxi e seguiu para seu apartamento no Catete.

Eram quase seis horas da manhã quando finalmente chegou em casa, não sabia o que fazer, se ligava para alguma amiga, se ligava para Fausto, estava realmente perdida e resolveu que a primeira coisa seria tomar um comprimido, visto que a dor de cabeça aumentava, e um bom banho quente. Ao sair do banho, seu celular começou a tocar, era Fausto, o noivo. Enrolou-se na toalha rapidamente e atendeu. – Alô... Oi meu amor..., Fausto estava nervoso e nem esperou que a noiva pudesse respirar e foi logo gritando do outro lado da linha, - Melissa!!!!... O que foi que houve?... Onde você estava? Liguei a noite toda para você, fui até seu apartamento..., quase fui procurar nos hospitais, necrotério..., Melissa escutava tentando se explicar, mas sem ter espaço e enfim deu um grito, mais de desespero do que por se sentir injustiçada, como tentou demonstrar para ver se amenizava a situação. – Ai... Fausto! Calma. Está tudo bem, já ia ligar para você, mas acabei de chegar... Fausto estava indignado e tudo que Melissa dizia só servia para aumentar ainda mais seu descontrole. – Como acabou de chegar?... Onde você estava até agora? E por que não atendeu minhas ligações?... Melissa pensava, porém com muita dificuldade, sua cabeça doía sem parar, além de que não estava acostumada a mentir, mas não tinha outra saída, respirou fundo e se aproveitando do descontrole do noivo fingiu um choro e o interrompeu falando rápido, antes que perdesse a coragem. – Fausto!!!... Por favor, pare de gritar comigo... Eu passei a noite na casa da..., pensou rápido em um nome que ele não conhecesse e que não pudesse ligar para comprovar sua história mentirosa, - ...da Carmen..., ficamos conversando e nem vimos a hora passar..., meu celular ficou na bolsa no quarto e quando vi já era tarde..., então resolvi dormir por lá e não quis lhe acordar... E hoje vim para casa bem cedo e já ia lhe ligar quando você me telefonou. Não há motivo para esse drama todo. Puxa hoje é o dia de nosso casamento e já começamos brigando... Melissa estava aos prantos, mas agora não mais de fingimento, estava realmente chorando e Fausto acabou por se sentir culpado por ter agredido a noiva sem deixar que ela pudesse antes se explicar, esquecendo até mesmo do fato de nunca ter ouvido falar de nenhuma amiga por nome Carmen e ficou sem saber o que fazer para acalmá-la e quase a coloca em outra situação difícil. - Meu amor... calma, desculpe, estou indo para ai agora. Fique calma, não chore. Melissa parou de chorar e quase se engasgou, - Não Fausto!... Não venha não! É que... o noivo não pode ver a noiva antes da hora do casamento, eu já estou bem. Pode ficar tranquilo. Melissa não podia permitir que Fausto a visse naquele estado, com olheiras enormes, além do odor que exalava de sua boca, parecendo que tinha ingerido álcool puro e da dor de cabeça que insistia em latejar. Precisava de um tempo para se recuperar, não poderia vê-lo naquele momento e sentiu um grande alívio quando o noivo concordou e desligou debaixo de um enorme pedido de desculpas. Após desligar o telefone se jogou no sofá e quando pensou que iria enfim descansar um pouco e tentar entender o que realmente se passou na noite anterior, seu celular sinalizou o recebimento de uma nova mensagem, - Nossa!!! Que noite hem?... Uma despedida de solteira para ninguém botar defeito. Adorei amiga, arrasou. Até o casamento..., bem se é que você ainda tá pensando em casar... hahahaha, bjs- Clarice. Melissa gelou e antes que pudesse parar de tremer e ligar para Clarice para que ela lhe explicasse do que estava falando, outra mensagem chegou ao seu celular, da mesma Clarice, agora era um vídeo dela dançando em cima da mesa do bar, agarrada a um dos garçons. Melissa estava apavorada, aquela não podia ser ela, não era possível, não se lembrava de nada daquilo, só tinha lembrança de ter bebido alguma coisa doce e de ter dançado um pouco, mas não o que acabava ver. 

 Apagou as mensagens e atirou o celular em cima do sofá e ele logo sinalizou outra mensagem, - Melissa..., amiga!... Nunca pensei que você fosse tão animada, caramba... Desculpe, não pude te esperar. Mas do jeito que você estava não deve ter sentido minha falta... bjs – Jussara. Melissa não podia mais esperar, pegou o telefone e ligou para Clarice. - Alô... Clarice, tudo bem? Estava nervosa e sem coragem de perguntar o que precisava, mas a amiga facilitou seu trabalho e foi direto ao assunto. - Melissa!!! Nossa não quis te ligar porque pensei que estivesse dormindo, mas não resisti em enviar as mensagens. Você viu? Estava um arraso..., Melissa não deixou a amiga acabar de falar e foi logo cheia de indagações, - Clarice, o que aconteceu?... Não me lembro de nada daquilo... Quem era aquele sujeito com quem eu estava dançando? E por que vocês não me esperaram, me deixaram lá sozinha?... Clarice parecia não acreditar no que ouvia e interrompeu Melissa que estava quase chorando do outro lado da linha, mas tentando conter-se. – Como assim Melissa?... Você não queria vir embora de jeito nenhum. Bebeu todas e só não ligou para o Fausto para acabar com o casamento, por que escondemos a sua bolsa com o celular, se não, acho que a essa hora não teríamos mais um casamento para ir hoje... Alias, vai ter casamento? Desculpe amiga, mas você estava muito engraçada, nunca havia visto assim. Foi ótimo. Ah..., o vídeo que lhe mandei, não foi o único não hem..., várias pessoas filmaram você, inclusive os garçons... Hummm, cada gato..., você que o diga sua danadinha, dançou com todos e bem agarradinha... Melissa mal podia acreditar no que ouvia, - Clarice!! Pelo amor de Deus, o que você está falando?... Como assim várias pessoas me filmaram? Quem? Preciso saber para ligar e pedir para não mostrarem para ninguém... Clarice começou a rir e só aumentou o desespero de Melissa que já era grande. - Melissa!!... Em que mundo você vive hem? A essa altura já deve estar tudo na internet... E vai ou não vai ter casamento, preciso saber para ver se vou ou não para o salão... Melissa, Melissa... Oi, oi... Você ainda está ai? Melissa havia largado o celular e corrido para o computador para acessar a internet e só conseguia pensara em Fausto, - Ai meu Deus... o que eu vou fazer agora? E gelou na frente da tela quando viu vários vídeos seus com as mais bizarras cenas dela dançando agarrada aos garçons do bar em cima da mesa e até uma em que aparecia com dois. Pensou em ligar para Fausto e dizer que havia sido um engano, que aquela não era ela, mas desistiu em seguida e torceu para que ele não visse, sabia que não tinha o hábito de entrar na internet e resolveu contar com a sorte.   

Fez um café bem forte e tentou dormir um pouco, mas não conseguiu. Resolveu então ir para o salão do final da rua para desfrutar do dia da noiva, presente ganho das vizinhas do prédio. Ao chegar, o local estava cheio de mulheres que olharam, todas sem exceção, para ela e riram entre os dentes cutucando uma as outras como que apontando em sua direção com o olhar. Melissa fingiu não ver, mas seu coração quase parou só de imaginar por que estavam lhe olhando, Será que viram? Como assim tão rápido, não... não..., devem estar me olhando por outro motivo, talvez por saberem que me caso hoje... Ficava repetindo para si mesma em busca da tranquilidade perdida. Mas não adiantou, achava que todos estavam olhando para ela e tudo que falavam era ao seu respeito e resolveu então fazer somente o cabelo, as unhas e a maquiagem, deixando todo o resto de crédito para outro dia. A gerente ainda tentou convencê-la a fazer pelo menos a massagem relaxante, que lhe ajudaria a ficar bem disposta para o casamento, mas não adiantou. Melissa agradeceu e foi embora, tudo que queria era ir para casa tentar descansar um pouco antes do casamento que seria às quinze horas no cartório do bairro seguido de um bolo na casa da tia de Fausto somente para poucos amigos e parentes.

Já eram quatorze horas e Melissa nem tinha começado a se vestir, estava cansada, ainda com dor de cabeça e se sentindo horrível com aquela maquiagem que fizeram nela para esconder as terríveis olheiras. Faltava meia hora para o casamento quando resolveu enfim colocar o vestido, que também achou que não lhe caiu bem, nada seria capaz de lhe agradar.
A campainha tocou, era o Olavo, o primo de Fausto, para levá-la até o cartório.

Melissa abriu a porta e pediu que ele entrasse e esperasse um pouco até que acabasse de se vestir. Após algum tempo, Olavo acho que Melissa estava demorando muito e resolveu bater na porta do quarto – Melissa..., estamos atrasados, vamos logo... Assim o noivo pode desistir... Olavo resolveu entrar visto que não obteve resposta e se deparou com Melissa nua em cima de uma pequena mesa no canto do quarto dançando e olhando para a tela do computador, que estava em uma cômoda ao lado da cama, um vídeo com ela também dançando em cima de uma mesa agarrada a dois homens. Olavo levou um grande susto e ficou de costas para não vê-la sem roupas. – Melissa!!!... O que está havendo?... Você bebeu? Está se sentindo mal? O que significa isso? Melissa nem parecia àquela moça tímida que todos conheciam e nem se importou que Olavo estivesse ali e sem lhe dar a menor atenção, saltou da mesa para o chão, colocou um vestido preto com um par de sandálias da mesma cor e saiu pela porta sem dar explicações deixando Olavo tonto. – Melissa! Melissa! Para onde você vai? E o casamento? E o Fausto?... O que vou dizer a ele?... Ele está esperando no cartório... Melissa!!! Melissa só se limitou a gritar, já descendo as escadas do prédio, que era para Olavo dizer a Fausto que ela estava indo se despedir da sua despedida de solteira e que talvez não chegasse a tempo para o casamento e seguiu descendo quase que correndo.


Olavo ficou sentado no sofá com a boca aberta por alguns minutos, mas logo se lembrou do vídeo e voltou ao quarto e mais de boca aberta ficou, - Nossa não é que é a Melissa mesmo... Ai Meu Deus o que eu vou dizer para o Fausto?...

Churrasco na Laje

Antonio era o segundo filho de Sebastião e Matilde e Onofre o mais velho. Os quatro formavam uma família Humilde, porém unidos e felizes e por mais limitada que estivessem às finanças da casa sempre sobrava algum para fazer um churrasco, cenário de todas as comemorações de batizado a casamento passando até por velório, como aconteceu por ocasião da morte da mãe de Matilde quando fizeram um churrasquinho em homenagem a pobre velha que partiu dessa para melhor. Sebastião era pedreiro e Matilde faxineira. Moravam em um subúrbio na periferia do Rio de Janeiro e todos os dias enfrentavam horas para chegar aos respectivos trabalhos que ficavam na Zona Sul da cidade. Sebastião trabalhava fazendo consertos em prédios de Ipanema e Matilde faxinas em Copacabana. Sebastião, ou Tião, como era conhecido por todos, não cansava de falar que um dia ainda iria morar de frente para o mar de Ipanema. Porém, Sebastião não tinha o menor apoio de Matilde que achava que o marido não passava de um sonhador e vivia fora da sua realidade. - Homem pare com essa besteira de ficar sonhando que vai ficar rico! Você não vê que isso pode ser um mau exemplo para as crianças que estão crescendo vendo pai vivendo um sonho impossível? E Sebastião retrucava:             – Matilde, eu ainda vou enricar e aí nós vamos mudar para Ipanema! Você vai ver! E quando esse dia chegar vou fazer o maior churrasco da história! Vou mandar matar um boi inteiro! O tema fazia parte da vida da família e Antonio passava seus dias, junto com o irmão, ouvindo o sonho do pai e as recriminações da mãe. 

E assim a vida seguiu com os filhos crescendo, os pais envelhecendo e nada da tão almejada riqueza, por parte do patriarca da família, chegar. Mas Sebastião não esmorecia jogava toda semana, mesmo debaixo das criticas constantes da mulher, e enquanto não ficava rico ia fazendo seu churrasquinho, na churrasqueira feita de tijolos na laje da casa, mesmo que só de asa e coração de frango quando a grana estava curta, para celebrar as datas especiais da família, o que era apreciado por todos que adoravam qualquer oportunidade para comemorar.

Antonio, diferente do irmão, não quis saber de estudar e se juntou ao pai na profissão de pedreiro e com o tempo passou a dividir com ele o sonho de ficar rico e morar na Zona Sul. Os dois formaram uma dupla nos jogos semanais, o que foi duramente criticado por Matilde que acusava o marido de não estar contribuindo para o futuro do filho. – Mas era só essa que me faltava Tião! Você agora não se satisfaz mais sozinho na sua falta de juízo de alimentar essa ideia maluca de ficar rico e está enfiando o menino na sua loucura! Você devia era incentivá-lo a estudar para virar doutor como o irmão e não fazer o pobrezinho ficar sonhando com o impossível! Matilde não se conformava, mas Sebastião não se abalava, muito pelo contrario, ficava feliz por ter no filho um aliado em seu sonho de enricar e tentava acalmar a mulher. – Mas Matilde, que culpa que eu tenho se o Antonio não quis estudar? Eu nunca falei para ele sair da escola, foi ele que quis largar os estudos e vir trabalhar comigo. Ele puxou a mim, acredita que a agente ainda vai ficar rico! Mas o discurso em nada convencia Matilde que não se conformava. Sua esperança estava no filho mais velho, Onofre, que diferente do irmão sempre gostou de estudar e foi com muito empenho, dedicação e ajuda de alguns dos patrões da mãe, que sempre lhe davam os livros usados pelos filhos tendo um deles até pagou um curso de reforço para ele por ocasião do vestibular, que conseguiu entrar para uma faculdade publica e estava fazendo direito para em breve se tornar advogado. Matilde não cabia em si de tanto orgulho quando pensava que pelo menos um de seus filhos iria realizar seu sonho de se tornar doutor.

Onofre já estava no último ano da faculdade e Antonio cada vez mais adaptado a profissão escolhida de pedreiro, os dois eram muito amigos, só não comungavam da forma de vida escolhida um do outro e Onofre tentava convencer o irmão a mudar. – Antonio, meu irmão, você não deveria desperdiçar sua vida atrás dessas loucuras do papai. Você precisa estudar mano. A mãe tem razão... Mas não adiantava Antonio cada vez mais estava certo de que o pai é que tinha razão e seguia feliz no caminho traço de perseguir a sorte.

Era final de tarde de uma sexta feira, Antonio e Sebastião estavam exaustos após o termino de mais uma semana de trabalho. Os dois estavam a caminho de casa quase que dormindo dentro do ônibus, parado no já conhecido engarrafamento, quando o pai perguntou ao filho a respeito da conferencia do jogo da semana:       – Antonio, meu filho, você conferiu nosso jogo desta semana? Antonio que estava todo caído no banco com a cabeça encostada na janela respondeu calmamente que não sem dar muita importância e Sebastião se irritou com ele. – Mas menino! Você não pode se esquecer de fazer essa conferencia! Vai que a gente ganha e não vê! Já pensou nisso? Tem que verificar, não pode esquecer de jeito nenhum! Na nossa parceria eu sou o responsável por fazer o jogo e você de conferir, esqueceu?! Sebastião falou tanto e realmente parecia nervoso, o que levou Antonio a despertar de sua preguiça e tentar acalma-lo. – Pai, calma! Nossa para que isso tudo? Quando a gente chegar eu passo na loteria e vou ver. Mas a gente não ganhou não... Aí foi que Sebastião se enraiveceu mesmo. – Não fala isso menino que dá azar! Ou você acredita ou não te quero mais como meu parceiro de jogo! Isso é uma coisa seria, é o sonho da minha vida! A partir de hoje eu mesmo vou passar a conferir os jogos. Sebastião foi falando sem parar e Antonio se desculpando tentando acalmar o pai que estava ansioso para chegar à loteria e conferir o bendito jogo. Assim que desceu do ônibus, após um tempo que pareceu interminável dado ao seu estado de aflição, Sebastião partiu em direção a lotérica que ficava no final da rua. – Deixa pai que eu vejo o resultado na Internet, melhor a gente ir para casa que a mãe já deve estar com a janta na mesa esperando... Antonio tentou convencer o pai, mas foi em vão. – De jeito nenhum! Se você quiser pode ir para casa, mas eu vou lá conferir esse jogo olhando número por número! Você é muito displicente, não posso mais deixar essa tarefa de tanta importância com você não. Vai saber se você já não se esqueceu de conferir alguma outra semana e a agente ganhou e nem ficou sabendo... Não, não eu vou lá sim ver com meus olhos e ao vivo e não quero saber dessa coisa de internet não. E os dois seguiram discutindo pelas ruas até chegarem à loteria que já estava fechando, Antonio ficou na porta, mas Sebastião correu e entrou sobre o protesto de Turino, o dono da loja. – Ei, ei... Já estamos fechando, por favor! Agora só amanhã! Sebastião pediu desculpas e entrou pela loja adentro dizendo que seria breve que era só para conferir o jogo da semana e foi direto ver o resultado preso na parede. Sebastião foi vendo número após número e o coração batia mais forte a cada um que verificava que havia acertado, quando terminou estava ajoelhado no chão chorando sem conseguir falar, o que acabou por chamar a atenção do dono da loja e de Antonio, que correram para junto dele. – Pai! Oh pai, fala comigo o que foi que houve? Não fica assim não, agente não ganhou não foi? Mas tudo bem, o senhor já devia estar acostumado com isso, toda semana é a mesma coisa, a gente joga e não ganha, mas um dia a gente vai ganhar o senhor vai ver... Antonio ia falando sem entender o porquê daquele desespero, achando que o pai estava triste por mais uma vez não ter acertado a loteria, quando Sebastião se levantou de um pulo e deu um grito.  – Nós ganhamos! Ganhamos! Antonio olhou para pai sem acreditar no que ouvia e saiu atrás dele que foi correndo e gritando pelas ruas até em casa surpreendendo a mulher que levou um baita susto ao vê-lo chegar tão exaltado a segurando pela cintura fazendo-a girar. – Ai homem, o que é isso? Que susto! - Nós ganhamos Matilde! Ganhamos! Nós estamos ricos! Ricos! Sebastião falava entre lágrimas de emoção.

A casa ficou em festa por vários dias. Sebastião e Antonio abandonaram o trabalho para pesar de Matilde que achava que os dois poderiam ter seu próprio negocio ao invés ficarem prestando serviço aqui e ali para os outros, mas nunca deixar de trabalhar, mas não adiantou os sermões, pai e filho não queriam mais saber de fazer nada, ela por sua vez tratou de abriu uma pequena empresa de prestação de serviço de limpeza e atendia os patrões para os quais trabalhou durante seu período de faxineira. Onofre, apesar de ter gostado muito de a família ter ficado rica, em nada se afastou de seus estudos para se formar e deu seguimento a sua vida normalmente.
Sebastião finalmente pode comprar um apartamento em Ipanema, como era seu sonho, uma cobertura, que apesar de não ser de frente para o mar, como era seu desejo inicial, agradou a todos.

A princípio Sebastião bateu pé firme e só queria apartamento de frente para o mar, mas depois cedeu aos apelos da mulher que alegou que morar na rua da praia teria muito barulho, que a janela não poderia ficar aberta por causa da areia, que tinha muito vendo e outras tantas coisas que acabaram por convencer o marido a comprar em outra rua, com tanto que desse para ver o mar, mesmo que fosse de lado e assim aconteceu. – É... Dá para ver o mar daqui tá bom! Negocio fechado vamos comprar. E assim começava a nova fase da família de Sebastião.

Era realmente um ótimo apartamento, uma cobertura de três suítes, sala ampla, cozinha grande, para alegria de Matilde, dois banheiros sociais e uma área externa, onde tinha uma pequena piscina e um bom espaço disponível, onde Sebastião, ajudado por Antonio, construiu uma super churrasqueira para completar a satisfação da família. Agora só faltava fazer a inauguração do apartamento e mudar.

- Matilde, agora nossa cobertura tá completa! Vamos organizar o maior churrasco que essa Zona Sul já viu para inaugurar a nossa cobertura! Esse prédio nunca viu nada igual... - Mas Sebastião, Sebastião... Não sei não, você não acha que essa churrasqueira ficou grande demais? Será que pode?  Olha que isso aqui não é o quintal da casa que a gente tinha lá no subúrbio não. Acho que era melhor você chamar alguém para dar uma olhada nessa geringonça antes de usar...

- Eu hem Matilde! Então eu não sei fazer uma churrasqueira? Tá maluca mulher? Eu passei a vida fazendo obra na casa dos outros e não ia saber fazer uma simples churrasqueira na minha própria casa?  Eu não vou chamar ninguém para ver nada, eu vou é fazer uma festança daquelas e chamar todo mundo lá do subúrbio para conhecer a nossa mansão! Deixa de bestagem que eu sei o que estou fazendo, vê se relaxa!

Matilde, mesmo dando o contra, passou a semana junto com Sebastião organizando os preparativos para o churrasco comemorativo. E no dia marcado lá estava a família reunida na ampla cobertura para receber os convidados. – Nossa Matilde, não tô nem acreditando, parece um sonho! Agora sim teremos um churrasco de bacana, bem diferente daqueles em cima dos tijolos que a gente armava lá na laje, lembra? Hoje carne não vai ser problema, vai ter pra todo mundo comer até encher o bucho. Os tempos de dureza, quando só dava para fazer churrasco de asa e coração de frango, acabaram! Sebastião estava eufórico e Matilde apesar da preocupação com o tamanho da churrasqueira, que achava exagerado, resolveu parar de falar para que o marido não dissesse que ela era estraga prazer e foi receber os convidados deixando os homens da família tratando de começar o bendito churrasco.

Os amigos do subúrbio começaram a chegar e não tinha quem não ficasse encantado com a cobertura da família de Sebastião. - Nossa isso é que é casa! Era a voz corrente entre os presentes. A festa corria solta, muita carne, cerveja gelada, musica tocando, tudo como planejado pelo novo milionário da cidade que não cabia em si de tanta felicidade. Todos estavam se divertindo, até Matilde, parecia ter esquecido suas preocupações e aproveitava a festa. Só Antonio sentia-se inquieto com o fato que começou a notar em relação à quantidade de fumaça que saia da churrasqueira que achou fora do normal e tratou logo de chamar o pai para verificar, mas de nada adiantou. – Pai eu acho que tem algo errado... Tem muita fumaça na churrasqueira... Eu nunca vi um churrasco fazer tanta fumaça assim. Melhor ir dar uma olhada. Mas Sebastião não deu a menor importância.   – Que nada meu filho! Isso é por causa do tamanho da churrasqueira, essa belezura que a gente fez. É que você tá acostumado com aquele churrasquinho que a gente fazia lá na laje em cima dos tijolos... Relaxa e vem aproveitar a festa! Nós agora somos bacanas! E churrasco de gente bacana é assim mesmo tem tudo muito, até a fumaça.  Antonio não se convenceu com a explicação do pai e foi falar com a mãe e com o irmão, sobre sua intranquilidade, e os três resolveram ir dar uma olhada na churrasqueira e começaram a abanar para ver se a fumaça diminuía, mas o efeito foi ao contrário do esperado e a cobertura ficou parecendo que estava dentro de uma nuvem negra. Os convidados, já entregues ao efeito da cerveja, estavam como Sebastião: sem dar a menor importância a fumaça e só queriam saber de comer, beber e dançar.

Em quanto isso na portaria do prédio...
- Tá pegando fogo sim na cobertura, dá para ver da rua! Temos que chamar os bombeiros! Falava exaltado um morador que estava caminhando pela praia e teve a atenção voltada para os rolos de fumaça que subiam da cobertura. E logo mais moradores se juntaram na portaria, uns achando que era incêndio, outros que era churrasco e a confusão estava formada até que veio o sindico aumentar a dúvida quanto ao fogo.  – Não adianta. Eu já cansei de tocar a campainha, quase derrubei a porta de tanto bater, mas ninguém atende. Ou é por causa do som que está nas alturas, que ninguém me escutou, ou estão todos queimados lá dentro! Só pode ser incêndio, não é possível que seja um simples churrasco! Tenho que tomar uma providencia! Vou chamar os bombeiros antes que pegue fogo no prédio todo!  E assim aconteceu, o sindico chamou os bombeiros que chegaram de imediato e fazendo uso da escada magirus rapidamente estavam dentro da cobertura. Era bombeiro para tudo quanto era lado, entraram pela frente pelo lado, parecia uma operação de guerra com homens armados com mangueiras de água que funcionaram como armas assustando a todos e em minutos tudo já estava terminado. A churrasqueira completamente alagada e todos os convidados e os donos da casa jogados no chão na tentativa de se protegerem do que parecia ser um atentado terrorista. O Sindico entrou pela porta, que foi aberta por um dos bombeiros, acompanhado por alguns moradores para ver o que de fato estava acontecendo e deu de cara com Sebastião que se levantava do chão com um espeto de carne na mão completamente molhado e assustado. – Nossa! Mas o que foi que houve aqui? Eu cheguei a pensar que vocês estavam mortos, queimados aqui dentro! Perguntava o sindico a Sebastião, que sem dar a menor atenção, só conseguia pensar em sua obra de arte, a churrasqueira e ficou a olha-la com pesar e começou a indagar os bombeiros do porque haviam feito aquilo. – Mas o que vocês fizeram? Acabaram com o meu churrasco... Olha só pra isso! Minha churrasqueira virou um lago! Nunca mais vai funcionar!... Os convidados, ajudados pelos bombeiros, foram levantando e saindo sem entender o que de fato havia se passado. Matilde e os filhos correram para junto de Sebastião que estava desolado ajoelhado do lado da churrasqueira. O sindico, mais uma vez, tentou se apresentar e explicar o porquê tomou aquela atitude, mas mediante a falta de atenção recebida resolveu se retirar, sendo seguido pelos demais moradores que e pelos bombeiros e a família ficou sozinha na sua cobertura alagada. Matilde, Antonio e Onofre, após algum tempo, conseguiram levar Sebastião para dentro e fazê-lo tomar um banho quente e colocá-lo na cama.

Na manhã seguinte quando Sebastião acordou, chamou a mulher e os filhos para uma conversa.  – Tenho algo muito importante para falar com vocês.  Passei a noite praticamente sem dormir pensando muito e tomei uma decisão. Acho que devemos voltar para casa... Onofre interrompeu o pai questionando o que ele estava dizendo. – Como assim voltar para casa pai? A gente agora mora aqui. Sebastião parecia calmo, bem diferente do dia anterior e explicou o que estava querendo dizer. – Eu sei filho que a gente agora mora aqui, mas aqui não é o nosso lugar. O que estou querendo dizer é que devemos voltar para o nosso subúrbio, para nossa gente. Agora temos dinheiro, não precisamos voltar a morar naquela casinha pequena de antes, não. Podemos construir uma casa grande, com tudo que tem direito, até maior do que essa cobertura aqui. Agora foi a vez de Antonio questionar o pai. – Mas pai e o mar de Ipanema que o senhor gosta tanto? Isso não vai dar para fazer. Sebastião riu e como que respondendo a uma criança passou a mão pela cabeça do filho e disse: - Ah... filho, a gente vai fazer uma super piscina, daquelas bem grandes que a gente vê nas casas dos ricos das novelas. Vai ficar uma belezura, você vai ver! E é claro que não vai faltar a nossa churrasqueira, vou fazer uma maior do que essa aqui!  E o dialogo entre os dois continuou, pois mesmo gostando da ideia, Antonio ainda não estava acreditando muito em tamanha mudança. - E o que a gente vai fazer com esse apartamentão aqui? Perguntou o filho e o pai respondeu – Sei lá filho! Talvez a gente possa vender... Não! Já sei: aqui vai ser a nossa casa de praia! Afinal nos somos bacanas e bacanas tem casa de praia ora! Não tem? E todos riram de cair no chão com uma grande satisfação. Afinal a decisão de Sebastião de voltar para o subúrbio era o que todos no fundo realmente queriam. Matilde levantou e abraçou o marido – Ah homem você é maluco mesmo, mas desta vez eu concordo com você! Aqui não é mesmo o nosso lugar, vamos voltar para o nosso subúrbio. Mas nada dessa loucura de sair construindo piscina e churrasqueira gigante, nada de exageros. E os quatros ficaram conversando sobre o projeto da obra da nova casa, discutindo os detalhes já em estado de mudança.

Sebastião, desta vez não se colocou a fazer nada, agiu somente como dono da obra, só na supervisão. Comprou um amplo terreno, contratou os melhores profissionais e mandou construir uma bela propriedade com tudo o que tinha direito, piscina, quadra de vôlei, de tênis, campo de futebol, sala de ginástica, sauna e é claro uma churrasqueira de causar inveja a qualquer churrascaria. Sem falar na casa em si que ficou um luxo só. Com mais cômodos do que eles teriam tempo de usar, mas que com certeza deixaria a família feliz.

A festa de inauguração, como não poderia deixar ser, foi um belo e farto churrasco para todos os amigos, parentes e vizinhos, inclusive os da cobertura de Ipanema, que compareceram em peso e se deliciaram com a festança. - Ah o povo aqui é que sabe se divertir! Isso é que é festa!  Dizia o sindico do prédio, onde a família morou na Zona Sul, erguendo um grande copo de cerveja e dançando ao som do pagode que tocava nas alturas.

A festa foi até de manha e acabou com todos mergulhando na piscina e saldando o sol que nascia a todo vapor como que dando as boas vindas ao retorno da família ao lar suburbano que os recebeu de braços abertos.

Almoço de domingo (Conto publicado na Revista Cultural no. 12 da Editora Novitas)

Clemente estava nervoso, seria o primeiro almoço que faria para receber a mãe depois de casado e nada poderia dar errado.
Antes das oito da manhã acordou Paula, sua esposa, que após reclamar devido a ter que sair da cama tão cedo no domingo levantou e foi direto para a cozinha preparar o almoço, nada podia dar errado.

Paula escolheu fazer uma moqueca de siri, sua especialidade. Clemente não estava muito confortável com a escolha da mulher por não saber se seria do gosto da mãe, mas acabou por concordar após a longa explanação feita por Paula dizendo que ficaria uma delícia.
D. Gertrudes, a mãe de Clemente, chegou pontualmente ao meio dia. Sentou-se na sala e ficou a observar todos os detalhes e já estava ficando incomodada com a demora da nora para vir lhe dar as boas vindas. – Clemente! Onde é que está a sua mulher que até agora não veio falar comigo? O filho tentou acalmar a mãe dizendo que a mulher estava terminando o almoço, mas de nada adiantou D. Gertrudes permaneceu contrariada com a demora da nora e mais ainda com o atraso do almoço, afinal haviam marcado ao meio dia e ela chegou na hora.

Finalmente, após longos quarenta minutos de espera, Paula surgiu na sala carregando uma grande travessa que fumegava e exalava um cheiro bom, porém não identificado por D. Gertrudes que por mais que estivesse apreciando, mesmo sem saber o que era, fez questão de não demonstrar.
Os três sentaram a mesa e o clima ficou mais ameno e descontraído, apesar do mau humor de D. Gertrudes. – Bem minha sogra, esse prato é minha especialidade e fiz em sua homenagem. Não vou dizer o que é, vou deixar para senhora degustar e adivinhar. Tenho certeza que vai gostar. Paula fingia não ver o descontentamento da sogra e fazia força para parecer simpática e feliz com sua presença, embora com grande esforço.


D. Gertrudes comeu com gosto, mas sem fazer um elogio se quer. Comeu várias vezes, com a desculpa de que estava tentando descobrir o que era o que realmente não havia conseguido saber. No final do almoço, passaram para a sala de estar onde Paula serviu café e tentou travar uma conversa com a sogra sobre o que havia achado de sua especialidade, mas parou de falar de repente e a olhou com cara de espanto. – Por que está me olhando assim? Perguntou D. Gertrudes ao perceber que Paula estava fixa a olhar para ela – É que a senhora está ficando toda inchada é vermelha, o que é isso? Respondeu Paula um pouco sem jeito. D. Gertrudes correu para o espelho para poder se ver e começou a gritar perguntando o que afinal tinham comido no almoço e quando Paula disse o que era a sogra ficou histérica e acusou a nora de querer lhe matar, pois ela tinha alergia a siri. Clemente olhou para a mulher em busca de uma explicação e Paula disse que não sabia, mas que era muita implicância a sogra ter alergia logo a sua especialidade.  – Eu sabia D. Gertrudes, a senhora nunca gostou de mim, essa sua alergia só pode ser para implicar comigo. Paula esbravejava e D. Gertrudes não cansava de gritar que a nora queria lhe matar e as duas ficaram discutindo e Clemente olhando com pesar o seu tão esperado almoço de domingo em família, em que nada poderia dar errado, se transformar num verdadeiro fiasco. 

A MULHER DA PRAIA

Tempo nublado, mar agitado, água escura, talvez reflexo do cinza que emanava das nuvens que brincavam de correr pelo céu que prometia chuva a qualquer instante. Estava longe de ser um dia convidativo ao banho de mar, mas ela estava lá, como todas as manhãs.
Charlote adorava caminhar pelas areias nos primeiros minutos do dia e banhar-se no mar. Era frequentadora assídua da praia do Leblon, chegava antes de o dia amanhecer e quando os ditos “intrusos” de seu tão amado espaço começavam a surgir, ela se recolhia e partia envolvida em um longo lenço branco esvoaçante e com chapéu de abas enormes, que a protegia dos olhares curiosos que viam sua figura deslizando pelas areias como uma sombra passageira. Ninguém conseguia ver o seu rosto nem saber quem ela era. Conheciam-na apenas como a “mulher da praia”.

Aquele dia, não era um de seus preferidos, pois amava o sol e o calor dele vindo, sentia-se revigorada em suas energias quando era possível senti-lo esquentar a pele, mas mesmo assim, não deixou de ir ao seu lugar mais querido, a praia. Porém não entrou no mar, somente caminhou na área e molhou os pés, ficando mais tempo que o de costume, como o dia não estava oportuno, os frequentadores não apareceram e a praia estava deserta como ela gostava. Andou por um longo tempo observando o mar revolto de águas gélidas ao ponto de adormecer seus pés. A chuva começava a cair e resolveu que já era hora de voltar para casa.
Ao chegar ao prédio em que morava, passou pela portaria de cabeça baixa deu bom dia entre os dentes e subiu de escadas para evitar cruzar com alguém no elevador, sempre que podia escapava do confronto com os vizinhos. Entrou em casa, um pequeno e sombrio apartamento de quarto e sala, cheio de quadros e figuras penduradas pelas paredes que não tinham mais lugar para nada. Tomou um rápido banho, serviu-se de uma xícara de café quente e forte e partiu rumo à galeria de artes que mantinha em sociedade com uma amiga recém chegada da França. Quem a visse passar de forma exuberante, linda em um vestido azul escuro, botas pretas e um longo casaco da mesma cor, jamais poderia imaginar que se tratava da mesma pessoa lúgubre e escamoteada que circulava na praia pela manhã. O porteiro do prédio, mesmo sem nunca ter visto as duas ao mesmo tempo, o que seria impossível, acreditava categoricamente que moravam duas pessoas no apartamento. No início, quando Charlote mudou para o prédio, ficou em dúvida, afinal sempre a via sozinha, mas com o passar do tempo, se convenceu de que eram duas as moradoras do apartamento 301.

Chegou à galeria antes de abrir, gostava de se antecipar a tudo, ser a primeira sempre. Estava preparando a exposição de um jovem pintor Frances, que como ela escolhera o Brasil para viver. Gostava de lançar artistas, apresentá-los ao mundo das artes, era boa nisso, entendia do que fazia. Charlote era jovem, porém ambiciosa e decidida, havia vindo da França para o Brasil há apenas dois anos a fim de aplicar seus conhecimentos no mercado das artes e já havia se estabelecido como uma das mais conceituadas marchand para os pintores brasileiros iniciantes.     
Às onze horas da manhã quando a galeria abriu e sua sócia chegou, já havia dado vários telefonemas em prol do evento que iria acontecer no dia seguinte.
- Bonjour, chérie, chegando cedo como sempre..., disse Anne ao entrar na galeria e ver a sócia em plena atividade, enquanto ela ainda parecia dormir.
Charlote vendo as feições de Anne, que parecia não ter saído da cama, levantou foi até a cafeteira encheu uma xícara de café e lhe estendeu, tendo a mesma feito cara feia, mas aceitando em seguida.
Anne era uma amiga dos tempos da escola em Lyon, pessoa pouco interessante e sem ambição segundo o julgamento criterioso de Charlote. Mas que servia bem aos seus interesses financeiros, afinal tinha capital e disposição para investir no mercado dispendioso como o das artes e estava sem destino certo na vida quando recebeu a proposta da sociedade, achando ser uma ótima oportunidade de deixar a França e vir para o calor dos trópicos.
O dia foi de muito trabalho, com o acerto de todos os detalhes para a exposição, nada poderia dar errado, seria a primeira de um artista internacional promovida pela galeria que mesmo se tratando de um novato era de suprema importância, pois só o fato de ser Frances já dava certo estilo e disso Charlote entendia e gostava. Às dezessete horas deixou a galeria, a tarde estava fria e uma chuva fina começa a cair. No caminho para casa comprou uma garrafa de seu vinho predileto que tomou até a última gota antes de se entregar a um sono profundo se deixando relaxar do estresse do longo dia.

Antes de amanhecer já estava na praia, o dia estava fechado como o anterior, porém mais frio, mas nada que pudesse tirá-la de seu tão valoroso passeio matinal. – Pensando bem, os dias sem sol não são de todo mal, afasta as pessoas da praia e posso tê-la só para mim, pensou enquanto caminhava de forma descontraída pensando estar sozinha, porém ela estava enganada, havia alguém sim e um alguém que há muito a observava de longe sem se fazer perceber.
Chegou antes das sete horas da manhã a galeria, estava ansiosa para a exposição, embora tivesse certeza de que tudo estava pronto queria revisar todos os detalhes, era perfeccionista e não sabia delegar nada, tinha que estar no comando.
Um pouco antes do horário previsto os primeiro convidados começaram a chegar, a publicidade feita foi intensa criando um ar de mistério em torno do novo artista o que causou de fato um efeito positivo fazendo com que todos estivessem aflitos para enfim conhecer a obra de tão falado pintor. Estava indo tudo muito bem, acima até das expectativas de Charlote, embora ela mesma não admitisse, pois fazia questão de demonstrar que tinha o controle de tudo, até das emoções. A galeria estava repleta de artistas, figuras da sociedade, políticos, jornalistas, celebridades dos vários níveis, um verdadeiro sucesso. E ela, desfilava deslumbrante pelos corredores, vestia uma capa longa verde musgo com apliques de bordados pretos e botas altíssimas de cano longo, sempre no estilo clássico que lhe dava um ar de muita elegância. Os convidados oscilavam entre apreciar as telas e a beleza de Charlote que não se fazia de rogada, aceitando todos os elogios a ela dispensados, porém sempre mantendo certa distância.
Após umas duas horas do inicio do evento surge uma nova figura, até então não vista no ambiente, um homem alto de cabelos negros penteados cuidadosamente para trás, sem nem um fio fora do lugar. Usava terno preto, cachecol cinza ao redor do pescoço e uma bengala que parecia somente acessório, pois não aparentava precisar de seu auxilio para locomoção. Charlote não notou a presença do novo convidado, mas ele a observava atentamente a cada movimento e após alguns instantes se retirou da mesma forma discreta que chegou.
Ao final da exposição, Charlote e Anne foram verificar o resultado junto ao responsável pelas vendas e foram surpreendidas com a notícia da venda de todos os quadros para um único comprador que não se identificou. O pagamento foi feito em dinheiro através de um portador com uma única exigência, a de que Charlote fosse pessoalmente entregar os quadros no final do dia seguinte no hotel que estava hospedado. Charlote estava acostumada a compradores excêntricos, antes do Brasil já havia sido dona da galeria em Paris, mas nunca havia tido uma exigência como aquela, relutou por um instante, mas depois cedeu, não achou ser de bom tom não atender a um pedido de um consumidor tão disposto a investir no mercado das artes.
Quando saíram da galeria, Charlote, Anne e Arnaud o pintor dos quadros, foram jantar e beber um bom vinho Frances, afinal a exposição havia sido um sucesso, precisavam comemorar. Ficaram no restaurante até bem tarde conversando animadamente e nem notaram que estavam sendo observados por um senhor sentado em uma mesa no final do salão.

O dia amanheceu ensolarado, sem uma só nuvem no céu, nem de longe se parecia com a sombria manhã anterior. E Charlote aos primeiros minutos já estava no mar a se deliciar com o frescor das águas frias que recebiam os raios de sol que riscavam as ondas de forma harmônica e cadenciada. O mar estava calmo, o que permitiu que pudesse nadar e ficar relaxando por algum tempo, não muito, pois com o sol vieram também as pessoas que Charlote abominava a presença em seu santuário sagrado que era a praia. Saiu quase que correndo da água quando avistou os primeiros “intrusos”, se enrolou em seu longo lenço, colocou seu chapéu com abas protetoras e partiu em retirada.

Decidiu que aquele dia não iria à galeria, tiraria para descansar e ler um pouco, outra arte que apreciava muito. Porém no meio da tarde recebeu uma ligação de Silva, secretária da galeria, lhe lembrando do compromisso de ir entregar os quadros pessoalmente ao comprador misterioso. –Oh, mon Dieu Silva... Havia esquecido!... Exclamou ao ouvir a secretária e em meia hora estava na galeria para apanhar os quadros e levá-los ao hotel indicado pelo comprador.
Ao chegar ao hotel se anunciou na recepção sendo autorizada a subir a suíte solicitada onde foi recebida por uma governanta que a pediu que esperasse na sala que logo seria atendida. Era um moderno e luxuoso hotel, porém não agradava aos patrões de Charlote que apreciava as decorações mais clássicas no estilo europeu. Mas não podia deixar de admitir que se tratasse de alguém de vastos atributos financeiros a pessoa a quem havia ido procurar, e isso lhe interessava.  Após quase quarenta minutos de espera já estava impaciente, andando de um lado para o outro, quando surgiu um jovem se dizendo secretário do comprador anunciando que o mesmo não poderia recebê-la e que os quadros deveriam ser entregues a ele, apresentando o recebido do pagamento feito no dia anterior na galeria pelas obras.
- Mas por quê? Algum problema? Estava furiosa, mas manteve o controle fingindo preocupação e após examinar o recibo e comprovar a veracidade entregou os quadros e se retirou.
Foi esbravejando por todo o caminho até chegar em casa onde entrou chutando os sapatos e gritando em francês vários palavrões que dedicou ao misterioso comprador, - Quem ele pensa que é para me fazer de tola, me obrigando a ir até ele e não me receber? Pensou antes de entrar debaixo do chuveiro frio para se acalmar.
No dia seguinte pela manhã quando voltou de seu passeio, foi abordada pelo porteiro que lhe entregou um envelope, o qual pegou de cabeça baixa e seguiu pela escada como de hábito quando chegava da praia.

Ao entrar em casa, rasgou o envelope e leu: - Merci madame, por atender ao meu pedido de entregar os quadros pessoalmente. Desculpe não ter podido recebê-la. Espero-a amanhã nos primeiros minutos do amanhecer para passearmos juntos pela praia, sei onde encontrá-la – Estava estática quando acabou de ler, como ele podia saber de seus passeios pela praia? Como? – Afinal quem é ele?... Pensou aflita.
Charlote era uma mulher misteriosa, como o porteiro do prédio pensava, ela realmente parecia duas pessoas distintas. Os passeios pela praia eram guardados a sete chaves, fazia questão de se manter anônima, não admitia dividi-los com ninguém. Lá estava seu lado livre, descontraído e até mesmo frágil onde a única ambição era de desfrutar da sensação de liberdade que o mar lhe causava, totalmente diferente da mulher exuberante, altiva e até mesmo arrogante que coordenava a galeria de artes em busca de poder e sucesso.
A noite foi passada praticamente em claro, não conseguia parar de pensar quem era aquele homem que sabia mais sobre ela do que qualquer um que conhecia. Estremecia só de imaginar que ele pudesse tê-la visto em seus momentos de pura descontração. – Mas como pode saber dos meus passeios? Nunca deixo meu rosto a mostrar... Terá me seguido?... Pensou durante toda a noite e quando faltava pouco para amanhecer resolveu levantar e fazer um café bem forte que bebeu devagar apreciando o raiar do dia pela janela. O sol estava a despontar e lamentou por não estar na praia vendo-o nascer, mas por mais vontade que tivesse não se sentia capaz e ter que enfrentar aquele desconhecido que pelo visto a conhecia muito bem. Ficou em casa lendo até uma hora que julgo ser conveniente para fazer algumas ligações de interesse da galeria. Depois entrou no computador e acabou por distrair-se só se dando conta que o dia já passava do meio, quando sentiu fome e parou para ver as horas: - Nossa! Duas da tarde..., resmungou e foi até a cozinha procurar por algo para comer passando pela sala e algo lhe chamou a atenção, um envelope por debaixo da porta. Apanhou e interfonou para o porteiro para saber se ele havia colocado lá e o mesmo disse que não e que também não tinha visto ninguém diferente de morador entrar no prédio. Desligou ainda com o porteiro falando do outro lado da linha e abriu o envelope. - Esperei por você durante toda a manhã. O sol estava ótimo como você gosta e a água do mar na temperatura ideal, foi uma pena não ter vindo. Irei esperá-la amanhã no mesmo lugar – Acabou de ler e amassou o papel com força como que quisesse fazê-lo desaparecer e resolveu que na manhã seguinte iria até a praia acabar com aquela palhaçada, afinal não tinha porque estar se escondendo de alguém que nem sabia quem era. – Amanhã acabo com isso, pensou indo em direção ao quarto trocar de roupa para ir à galeria, aquela altura havia perdido a fome.
Às cinco e quinze da manhã do dia seguinte, Charlote estava na esquina de sua rua pensando se deveria ou não ir até a praia que ficava dois quarteirões dali e depois de sentir que estava quase furando a calçada de tanto andar em círculos resolveu ir. Caminhou apressadamente e quando viu estava lá no meio da praia parada olhando para todos os lados. O dia foi nascendo aos poucos iluminado pelo fraco sol de inverno e as pessoas foram aparecendo e ela por debaixo de seu chapéu de abas enormes procurava rosto por rosto, mas não encontrou nenhum com a energia que sentiu nos bilhetes que recebeu, ficou ali até um moleque aparecer correndo e lhe entregar um papel onde dizia: - Adorei vê-la. Até manhã. - Maldito, esbravejou rasgando o papel em vários pedaços.


A partir daquele dia, suas idas a praia tornaram-se buscas incessantes pelo misterioso desconhecido que não se deixava ser visto, mas sempre a fazia saber que esteve lá e que a havia visto. Ela a cada dia se sentia mais furiosa, porém com as reservas mais baixas. Seu misterioso observador havia trocado de lugar com ela, agora era o rosto dele que não era visto e não mais o dela, que passou a não mais se proteger dos olhares alheios que foram deixando de ter interesse pela “mulher da praia” uma vez que ela mesma não mais se importava. Aos poucos foi perdendo seu ar enigmático, deixando a mostrar seu rosto que se tornou comum pelas areias da praia do Leblon. Até o porteiro do prédio finalmente pode vê-la de frente e olhá-la nos olhos em sua versão de “mulher da praia”, em um dia que voltou para casa sem seu aliado chapéu. O pobre homem quase morreu de susto ao ter sua certeza desfeita de que no apartamento 301 moravam duas pessoas.